O poder da intuição - Parte I

Confiar no nosso instinto pode guiar-nos de forma espantosa ou induzir-nos em erro de forma perigosa? Esta é uma questão respondida no 8º Simpósito da Fundação Bial.

Quantas vezes, quando colocados perante uma escolha, decidimos quase de imediato, sem necessidade de racionalizar uma resposta? E em quantas outras não perdemos demasiado tempo a procurar a resposta certa, apenas para perceber, no final, que deveríamos ter seguido o nosso instinto inicial? Graças à intuição, este "sentimento de saber sem saber porque se sabe", na definição do psicólogo americano Seymour Epstein, navegamos pela vida muitas vezes como num avião comercial, em piloto automático. E, contudo, a intuição está muito longe do funcionamento de uma máquina.

Segundo Epstein - um dos peritos mundiais no estudo da intuição que marcou presença no 8º Simpósio da Fundação Bial (este ano dedicado ao tema "Intuição e Decisão"), que ocorreu no Porto - ela aproxima-nos dos animais. "Quando os humanos desenvolveram a fala, não abandonaram simplesmente o sistema de aprendizagem não-verbal através do qual vinham fazendo a sua adaptação ao meio ambiente. Por isso, operamos segundo dois sistemas: um verbal, que nos permite pensar mais abstractamente e raciocinar logicamente; e outro não-verbal, automático, emocional". O primeiro tem permitido feitos únicos da Humanidade na ciência, na medicina ou na tecnologia; o segundo é fundamental para navegarmos pelo nosso quotidiano.

Mas como funciona, afinal, a intuição? O belga Axel Cleeremans, professor e investigador da Universidade Livre de Bruxelas, nota que ela representa um atalho no normal processamento da informação "Vamos directamente do estímulo à resposta", defende. É o mesmo princípio aplicado na aritmética simples. Qualquer pessoa que conheça a tabuada sabe responder de imediato à questão "Quanto é 8x4?" sem necessidade de raciocinar. "Na intuição, a memória substitui o raciocínio, o que explica porque somos incapazes de justificar as nossas decisões intuitivas: não há nada a explicar, uma vez que recebemos a resposta correcta da nossa memória e não de um raciocínio ou deliberação consciente."

Claro que, apesar de a intuição ter méritos por vezes espantosos, ela pode igualmente induzir-nos em erro de forma perigosa. A melhor maneira de evitar qualquer ratoeira é aplicá-la em áreas onde somos peritos com experiência acumulada. "Por exemplo, um jogador de xadrez experiente pode olhar para um tabuleiro e, de forma intuitiva, perceber qual é a melhor jogada. O mesmo acontece com médicos e mecânicos que podem, muitas vezes, fazer diagnósticos intuitivos", explica o psicólogo americano David Meyers, autor do best-seller "Intuition: Its Powers and Perils" (Intuição: Os Seus Poderes e Perigos), um dos participantes no simpósio da Bial. A intuição pode também ser um bom aliado para escolher uma obra de arte, explorar o nosso lado mais criativo ou, sublinha Epstein, encontrar a solução para um problema demasiado complexo de resolver através de um raciocínio lógico.

Em sentido inverso está o uso da intuição para descobrir uma mentira - "a maior parte das pessoas não são muito boas a detectar mentiras", sustenta Meyers - ou para contratar alguém através de uma entrevista. "Uma entrevista diz-nos apenas como uma pessoa se comporta quando quer deixar uma boa impressão. Se de um lado estiver o nosso instinto e do outro estiverem resultados de testes, amostras de trabalho e classificações de desempenho em anteriores empregos, esqueça a intuição", aconselha.

Segundo Cleeremans, a nossa intuição pode também ser perturbada quando nos comportamos de acordo com preconceitos (possivelmente inconscientes). "99,9% dos árabes não são terroristas", ilustra o investigador belga. "Devemos confiar nas primeiras impressões, mas é bom desafiá-las de tempos a tempos, para evitar decisões influenciadas pelos estereótipos." Quanto ao mito da intuição feminina, estudos de Judith Hall, da Universidade Northeastern (EUA) confirmam: elas superam os homens.



Nelson Marques (www.expresso.pt)
Domingo, 18 de abril de 2010

Nenhum comentário: