Muito longe d'aqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...
Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando...
Caí e achei-me, de repente, involto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.
Senti um monstro em mim nascer n'essa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
— É assim que rujo entre leões agora!
Antero de Quental, O Circo, in "Sonetos”
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...
Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando...
Caí e achei-me, de repente, involto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.
Senti um monstro em mim nascer n'essa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
— É assim que rujo entre leões agora!
Antero de Quental, O Circo, in "Sonetos”
O tempo em que vivemos,
esta nossa época desordenada e instável, votada à multiplicidade de pontos de
vista, onde as certezas prevalecem sem ter que ser confirmadas, ou mesmo que o
sejam e caiam por terra, tendem a fazer-se prevalecer como certas, é também um
tempo de indefinições e incertezas, frente às quais tudo parece possível, plausível.
Mas é sobretudo um tempo
de numerosas escolhas, que correspondem como não poderia deixar de ser, a múltiplas
ofertas.
É assim também no que se
refere à literatura, em tempos de globalização, que tende a uma uniformização
e padronização dos gostos. Mas como há sempre uma luz ao fundo do túnel, julgo
que o futuro do livro não está totalmente perdido.
(http://folhetoedicoesdesign.blogspot.pt/2013/03/convite.html)
Aqui vos deixo só um cheirinho:
Depressão pelo lado de fora
Nas esquinas do meu quarto
Nas paredes, nas fotografias nelas coladasNa Mona Lisa despida à porta
Na televisão apagada
Na vela gasta, na electricidade cortada
Neste recanto do quarto onde me deito
Onde sempre quis ter gente sentada
Distraída.
Estou eu aqui denunciando a inércia de mais um dia de depressão,
olhando a gaveta
onde estão as cápsulas do país das maravilhas, em
que acabo sempre descaída
Em passos vagarosos como a pressa que tenho por ti
Dirijo-me à cozinha onde no frigorífico desligado sobra fruta que no dia anterior surti
já quente, comida num dia demente de chuva
sem raios de luz veemente
depressa este se põe, pois nele fingi que vivia,
de sorriso apagado
mas de coração apaziguado
merecido descanso soterrado
nas ausências dos nadas a que me habituei
E na humidade nocturna, namoro o escuro,
onde no íntimo, sempre vagueei
Devido a uma conta por pagar
Adormecendo pobre mas segura
que quando tudo está contra vontade
é porque anteriormente a consumimos,
mal ou bem,
Em Liberdade.
Lia Cardoso, in V Antologia de Poetas Lusófonos, pág. 294
Nenhum comentário:
Postar um comentário